Transexualidade: uma verdade incontestável
Breno
Rosostolato*
O
transexualismo é uma realidade para muitas pessoas que buscam sua felicidade na
mudança definitiva de sexo e identidade. É a contradição de uma imagem fictícia
e uma verdade incontestável. Pessoas que apresentam um comprometimento emocional
e insatisfação sexual por conta da incompatibilidade quanto “àquilo” que são de
fato e o que o corpo apresenta. O que me chama a atenção é que atransexualidade
não é um fenômeno, porque não é extraordinário, mas uma constatação que discutir
sexualidade vai muito além do sexo. É compreender mais sobre a constituição de
identidade do que, meramente, órgãos sexuais. O transexual prova que seu destino
não é traçado na maternidade, me permita assim o poeta.
Conforme
o CID-10 (classificação estatística internacional de doenças e problemas
relacionados com a saúde), trata-se de um desejo de viver e ser aceito enquanto
pessoa do sexo oposto. Este desejo é reprimido por conta de um sentimento de mal
estar ou de insatisfação em relação aos próprios genitais, envergonha-se
evitando tocá-los. As frustrações no ato sexual são inevitáveis. De fato, os
comprometimentos emocionais por conta desta confusão na identidade de gênero
pode levar a um embotamento afetivo, isolamento social e a uma condição cada vez
mais marginalizada. A identidade de gênero é a maneira como a pessoa sesente, se
identifica e se apresenta para si e para os outros e independe dosexo biológico.
O conflito do transexual é não se sentir completamente uma mulher porque o corpo
masculino não corresponde à subjetividade feminina ouvice-versa.
Existem
ainda algumas variações sexuais que num primeiro momento podem confundir-se ao
transexualismo: o travestismo e o crossdresser. No travestismo, as pessoas se vestem como o sexo oposto e
possui um ingrediente prazeroso em sentir-se como tal. O crossdresser é parecido
com o travestismo, mas não implica, necessariamente, na orientaçãohomossexual.
Caso mais conhecido é o cartunista Laerte, exemplo de crossdresser.
A
questão é que sentir-se masculino ou feminino difere de sentir-se homem ou
mulher, até porque estas últimas classificações são estereotipadas e reforçam a
dicotomia social. O que determina a existência de uma pessoa é identificar-se
com seus desejos, encontrar-se com as próprias referências e assumi-las, ouseja,
masculino ou feminino.
No
caso dos transexuais admiti-se a diferença sexual alicerçada pela identidade de
gênero, logo, ter um pênis ou uma vagina pode ser uma exigência pessoal. É então
que a cirurgia de redesignação de sexo ou transgenitalização é o caminho mais
provável e, na maioria dos casos, providencial. No Brasil, desde 1997 este
procedimento é gratuito. Mas é bom salientar que cada caso é estudado com muito
cuidado e adotando todos os critérios possíveis e necessários, principalmente no
que diz respeito à psicoterapia e aos requisitos médicos.
Depois
de confirmado o diagnóstico de transexualismo, uma vez que a pessoa pode
apresentar outros transtornos de personalidade concomitantes, iniciam-se
osprocedimentos fundamentais para a cirurgia. Hormonioterapia ajuda o indivíduo,
aos poucos, renunciar as características sexuais contrárias de sua real
identidade sexual. No caso do transexual homem para mulher, hormônios
anti-endrogênios que promovem um atenuamento na voz e na pele, aumento de
gordura e crescimento de mamas e eliminam pelos através da eletrólise, uma
depilação definitiva. Quanto a cirurgia, são retirados os testículos e o pênis
(penectomia). A vaginoplastia aproveita os tecidos internos e constitui
umaneovagina. Ainda, o nariz é afinado e o pomo de adão retirado.
No
transexual mulher para homem são administrados hormônios androgênios que
promovem crescimento dos pelos, engrossamento da voz e ganho de massa muscular,
e na cirurgia é feito o procedimento de mastectomia (retirada das mamas);
histerectomia (retirada do útero) e oforectomia (retirada dos ovários). A
faloplastia consiste em enxertos feitos para constituir um neofalo e, com ajuda
de uma prótese, deixá-lo ereto.
O
impacto é grande na vida das pessoas que se submetem a estes procedimentos e,
ainda assim, mesmo depois de todo este sacrifício deve-se superar uma etapa não
menos dolorosa, o preconceito. O transexual ainda possui muita dificuldade em se
relacionar com alguém que compreenda o conflito vivido e a nova existência. No
entanto, a sociedade deve acolher estas pessoas que desmistificam os
determinismos genéticos, quebram estereótipos e classificações sociais e, provam
que a identidade sexual não é uma característica secundária. Para o transexual,
entre ser ou não ser, felicidade rima com reconhecimento e
aceitação.
*Breno Rosostolato é professor de
Psicologia da FASM (Faculdade Santa Marcelina).
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